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          CONVERSA SOBRE LIVRO "PORNOFILIA 

                                   (e temas derivados)      

                             COM A FILÓSOFA PÂMELA CAROLAYNE

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[Pâmela Carolayne] Cheguei ao livro “Pornofilia: sobre a natureza moral e cultural da sexualidade ocidental”, por meio de um reels do autor, Wagner Uarpêik, acerca do caráter pejorativo que a sociedade atribui à pornografia, opondo-a ao nu artístico, o qual carregaria uma carga de sentido mais publicamente aceitável. Temas como sexualidade e erotismo são caros à minha pesquisa de mestrado, visto que ela aborda, a partir dos ensaios de Audre Lorde, a importância da energia erótica na construção de uma poética revolucionária.

Nesse sentido, a leitura de “Pornofilia” me pôs a pensar em pelo menos dois núcleos centrais na construção argumentativa de Uarpêik: o primeiro diz respeito à apresentação da densidade do problema social causado pela indústria pornográfica, e o segundo refere-se à reconstituição das bases cosmológicas (leia-se míticas) que colocam a sexualidade humana como questão moral, religiosa e médica. Ora, os trocadilhos presentes no livro demonstram também um compromisso estético do autor com a didática, já que, assim como a agroindústria nacional, a pornografia também produz uma mercadoria, mas com a peculiaridade de satisfazer, ironicamente, níveis altíssimos de abstração. Assim, “Pornofilia” ressoa como um livro que, a despeito de não esgotar todas as problemáticas em torno da indústria pornográfica (tarefa inumana), propõe uma apresentação da sexualidade tal qual é capturada pelas câmeras, isto é, como um fenômeno complexo e multidimensional.

 

[transcrição de conversa ocorrida em julho de 2026

no Café Aroma, em Natal]​


[Pâmela Carolayne] No espetáculo Dar um fim ao juízo de deus, do Teatro Oficina, há uma cena onde um dos clérigos traz um pote de dejetos para o público, que responde com caretas e demais expressões de nojo. No fim do ato, o ator indaga a respeito da proveniência da ojeriza à sujeira.  

Trazendo o questionamento da peça do Teatro Oficina, e considerando também o seu estudo em relação à passagem da doença para o vício em uma analítica da sexualidade ocidental, em que medida a sujeira, seja pela própria referência crua aos fluídos corpóreos em cenas pornográficas, seja na própria fala nesse contexto, lhe pareceu significativa na construção desse sentimento de vergonha do pecado original? 
 
[Wagner Uarpêik] A longa, e ao mesmo tempo curta [já que profundamente vinculada ao seu grande mito fundador: o pecado original cristão] invenção da sexualidade ocidental inclui a derivação ou transferência da velha preocupação religiosa com o pecado – para a preocupação moderna com a doença. A segunda não pode ser totalmente reduzida à primeira, mas em alguma medida a prossegue, pressupõe, evoca. 
 
É difícil saber até que ponto nossas atuais ideias e sentimentos de higiene são herdeiros diretos da crença no pecado carnal – ou atendem a outras demandas e causas...até mais poderosas. Mas com certeza o grande investimento da pornografia naquilo que nossa cultura sexual [e talvez muitas outras] considera “sujo” evidencia que a obsessão cristã com a pureza e a compulsão moderna com a limpeza – têm sido ironicamente eficientes. 


[Pâmela] Gostaria que você citasse um exemplo dessa evocação do pecado original no contexto do adoecimento moderno...

[Wagner] A maneira como muitos concebem o vício em pornografia, por exemplo, ao inscrever esse hábito de consumo no domínio da doença ou do distúrbio psíquico – atribui ao doente uma debilidade pessoal, uma particularidade desviante, uma anormalidade que fere a regra. Parece haver na noção contemporânea de doença sexual [ou de doença em si?] o pressuposto implícito de um mal que em alguma medida vem de fora da sociedade – para se alojar no indivíduo suficientemente débil para adoecer, se viciar... 

Ora, já vimos esse filme antes, séculos atrás, quando o chamado cristianismo era, senão mais dominante do que agora, pelo menos mais óbvio, explícito, oficial: a culpa pelo pecado carnal, embora socialmente criada e sustentada – caía nas costas do indivíduo pecador, do confidente a sós com o padre, do herege torturado... Assim a sociedade tentava lavar as mãos: personalizando o mal coletivo, e castigando indivíduos específicos por um crime coletivo e de certo modo anônimo.

Parece que o velho álibi do pecador era forte demais para não inspirar o álibi do doente, sacou?

Apesar de o uso de pornografia ser uma questão de escolha e responsabilidade individual, apesar de a ascensão da pornofilia sinalizar uma enorme decadência civilizacional, e apesar de o vício em pornografia ser uma questão de saúde pública, digna de terapia – não escrevi “Pornofilia” para repetir o que milhares de psicólogos, religiosos, filósofos e médicos já disseram, mais ou menos sabiamente; tampouco criei “Pornofilia” como remédio moral ou proposta política. Minha pesquisa tenta implantar racionalmente no leitor a seguinte semente: não seriam certos valores e mitos inventores da cultura sexual ocidental – as grandes raízes invisíveis da nossa pornofilia?


[Pâmela] “O mítico casal soube que estava nu; conheceu a vergonha. Raiz de nossa finitude, o sexo seria, portanto, nosso mal fundante” (Uarpêik, p. 52). Neste trecho, você (a partir do pensamento foucaultiano) vai da cena mítica cristã da fundação do pecado até a culpabilização do sexo como oriunda da descoberta da nudez. Mas não seria a nudez também uma referência à nossa vulnerabilidade, pensando sexo como relação de poder hipoteticamente não unilateral?    


[Wagner] Eu adoraria saber do que Adão e Eva realmente se envergonharam! [risos]. Até que ponto os autores da Bíblia foram metafóricos ou literais – é uma conversa que já dura séculos, viu?! Acho que há muito tempo nos restou descobrir por nós mesmos o verdadeiro gosto da maçã comida por nossos vovôs míticos – e saber como e quando ficamos espiritualmente nus. Sim, porque do ponto de vista antropológico, a nudez é mais um estado de espírito, do que um estado de corpo; mais uma presença de símbolos, do que uma mera falta de roupa... 
 
Gostaria que você falasse um pouco mais sobre a diferença entre uma forma de sexualidade mais “mentalista” e a que você denomina como mais “gregária”. 
 
Quanto mais autocentrada, introspectiva, individual, verbal, digital e imaginativa for sua busca por [in]satisfação sexual – mais sua sexualidade é, como batizei, “mentalista”. Quanto mais “ao vivo”, analógica, tátil, dual, extrovertida e vinculada ao outro for sua expressão sexual – mais sua sexualidade é “gregária”. 
 
A sexualidade mentalista talvez seja recorrente em humanos de temperamento, psiquismo ou gostos mais abstracionistas e fantasiadores; é típica de sociedades de natureza individualista; é regra em certas patologias mentais e perturbações narcisistas; e é filha, ou pelo menos grande amiga – da civilização que apostou mais alto na separação entre mente e corpo, espírito e matéria, “real” e “virtual”: a ocidental.
 
A sexualidade gregarista é recorrente em humanos não intelectualistas; é típica de sociedades coletivistas; é regra entre indivíduos minimamente saudáveis; e é filha, ou pelo menos grande amiga – das culturas e cosmologias menos dualistas, dicotomistas, e portanto, mais integradoras, holistas, unitivas [como as indígenas e as dos antigos chineses].
 
 
“Assim como os namoros, casos e casamentos, as prostitutas e strippers são palpáveis, físicas, corpóreas demais – para uma demanda tão abstrata, imaginativa e solitária” (Uarpêik, p. 67).   Qual a relação entre essa abstração, a sexualidade vivida de maneira solitária por muitos homens e a prática filosófica ocidental?  
 
O onanismo, a masturbação – pode se tornar um estilo de vida! Não foi só por brincadeira que criei o termo “punhethos”: os efeitos desse jeito de viver são muito sérios. Uma pessoa pode “se masturbar” de muitas maneiras – e inclusive sem qualquer participação direta dos chamados órgãos sexuais. A figura do intelectual tagarela, o “palestrinha” apaixonado pela própria voz, pensamento e performance – tem sido associada à “masturbação intelectual”, né? Sabe aquele músico de jazz ou instrumentista que parece buscar na música ou no som do próprio instrumento musical um frenético gozo solitário...? E esse culto narcísico à própria imagem ou corpo fotografado, postado e editado centenas de vezes num único mês? Tudo isso é um tremendo punhethos em ação! 
 
Há dezenas de escolas ou tradições filosóficas bem menos cabeçudas, racionalistas – do que as paridas pelos gregos e iluministas. Se é verdade que uma vida muito mentalista combina com uma sexualidade mentalista, os filósofos ocidentais talvez exemplifiquem, mais do que qualquer outra categoria social, o apogeu desse casamento. Não é fácil achar uma profissão ou ocupação que incentive e premie mais a abstração, a introspecção, o intelectualismo... 
 
Que efeitos em termos de sensibilidade essa quebra de fronteiras entre tela, lente da câmera e olho nu o realismo pornográfico produz? Gostaria que você falasse mais sobre esse realismo despersonalizado de descrição de orifícios, de perseguição da verdade do sexo e do idealismo intrínseco à nossa pornofilia (mencionado na conclusão do livro). 
 
Mais do que a delicada e complexa tarefa de mapear como a tríplice fronteira pornô tela-câmera-olho afeta nossa sensibilidade – talvez eu tenha sondado, em “Pornofilia”, que tipo de sensibilidade é essa...capaz de fundamentar, permitir, gerar com feroz urgência essa jornada rumo às profundezas mais secretas do corpo. Será que outras culturas sexuais, de posse do mesmo aparato tecnológico que a pornografia moderna dispõe – se lançariam ou se lançaram tão vertiginosamente na mesma direção?  
 
Aposto que não (mas só um vasto e detalhista esforço etnográfico confirmaria minha tese). Essa grande marcha visual, essa tenaz cruzada imagética, essa procissão tecnológica que prescinde de rostos e pessoas, que opera numa espécie de vácuo simbólico, sugada por uma espécie de buraco negro metafísico nascido do trauma cosmológico do pecado original – é uma peculiaridade ocidental! (embora eu suspeite que as cosmologias judaicas e muçulmanas também tratem o sexo como algo essencialmente, ou mui potencialmente, maléfico, maldito, tenebroso).  


Não é raro vermos um frequente incômodo seu em relação aos estímulos irrefreáveis advindos de nossa sociedade com fluxos de informações cada vez mais aterradores. Daí também compreendemos o peso que os dados sobre acesso e consumo de pornografia têm no seu estudo sobre a pornofilia ocidental. Nesse sentido, gostaria que você falasse mais sobre a influência das filosofias não ocidentais na sua percepção sobre a dinâmica entre o silêncio e a fala.   
 
As cosmologias e moralidades ameríndias e sino-japonesas, e a filosofia nietzscheana [pois, como repetia minha amiga Nivaldete Ferreira, o alemão Nietzsche pensava sobretudo como um oriental! – e aposto que ele nos orientou muito mais do que ocidentou!] ...tudo isso me ajudou muito a perceber, valorizar e buscar o silêncio, e a tentar (pelo menos tentar!) espreitar e evitar a verborragia. Acho que minha simpatia pelo silêncio e pelas virtudes que ele ilumina podem me ajudar a estranhar e ver de longe a barulhenta e ansiosa civilização em que vivo – e ao mesmo tempo podem me impedir de compreender certos fenômenos...por não conseguir me aproximar deles o suficiente. Às vezes precisamos escolher entre ter paz ou ter razão! [risos]

Você trouxe outro elemento na dinâmica entre fala e silêncio no contexto da nossa realidade social: a ansiedade. Quais práticas, ritualísticas, você pôde aprender com os povos originários e até mesmo com filósofos/sociólogos ocidentais, as quais você considera importantes nessa sua relação com a dinâmica entre o silêncio e a fala? Gostaria que narrasse um pouco esse processo.

Muitos povos indígenas do nosso continente ensinam (de maneira mais ou menos explícita) que é melhor ouvir e observar do que falar, que sentir ou intuir é mais sábio que pensar, que praticar é melhor do que teorizar, que o silêncio e o exemplo vivo podem ser mais pedagógicos do que a palavra e o conselho morto... As culturas indígenas mais elevadas ainda cultivam esse antigo tesouro comum, outrora tão continental... Ainda existem muitas histórias, rituais, livros, filmes e nativos apontando para o poder do silêncio.

Ora, o caminho do silêncio também tem sido praticado no Oriente [aliás, parte da linhagem genética dos povos ameríndios é oriunda do Extremo Oriente]. É triste e engraçado que nós, latinos, herdeiros e conterrâneos de ameríndios tão “zen” – tenhamos nos acostumado a buscar um zen tão distante. Muitos grandes mestres do silêncio e da boa fala caminharam e ainda caminham pela América, um deles pode ser nosso tatatatataravô, e a galera querendo virar chinês, japonês, monge, shaolin... [risos].

 

É, fomos colonizados pela Europa e pelos EUA... Mas a colonização não acaba aí, na política, na economia, na cultura – e no velho jogo de coerção das metrópoles... A América Latina sofre também de uma espécie de autocolonização espiritual promovida pela importação de princípios espirituais orientais bem menos estrangeiros do que parecem.   

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