
TRANSCRIÇÃO DE PARTE DE ENTREVISTA PARA RAIANE MIRANDA – DA RÁDIO DA UFRN [88,9 fm] – SOBRE “NOMADEIA”
Raiane Miranda [locutora]: Já imaginou viajar a América Latina durante três anos, visitar os países vizinhos, e passar por mais de 70 cidades? Foi o que fez o cientista social, potiguar, Wagner Uarpêik. Foram tantas vivências, desafios e conquistas, que o final dessa jornada teria que ter um desfecho à altura. E o que melhor para registrar essa experiência senão um livro? Foi o que fez Wagner, que contou tudo, ou quase tudo, sobre essa aventura em “Nomadeia: jornada de 994 dias pela América do Sul e pelo Caribe”, seu livro lançado no último sábado; e é com ele que vamos falar agora. Boa tarde, Wagner Uarpêik, seja bem-vindo.
Wagner Uarpêik: Boa tarde, Raiane.
Locutora: Wagner, quando foi essa sua viagem pela América Latina, e o que motivou você a escrever esse livro?
Wagner: A viagem aconteceu entre 2008 e 2011, e eu escrevi o livro para contar a história, senti essa necessidade. Se eu fosse diretor de cinema, iria fazer um filme. Mas como sou escritor, escrevi um livro.
Locutora: E de onde veio essa vontade de fazer a viagem geral, que você planejava. Teve alguma preparação?
Wagner: Sim, eu me preparei até certo ponto, mas boa parte das metas, destinos, foram decididos na estrada {…}. A meta inicial era uma espécie de rito de passagem, né?, que eu queria fazer. Mais do que conhecer os lugares, eu queria me conhecer melhor.
Locutora: Você passou por quais países? E quais que a gente vai encontrar aí no livro?
Wagner: {…} Sul do Brasil primeiro, né? Uruguai em seguida, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, e um arquipélago da América Central chamado Trinidad y Tobago {…}. E Bolívia, desculpe.
Locutora: {…} Tantos países, tantas experiências, culturas diferentes, eu acho que rendeu muita história, por isso no início eu falei: contou quase tudo. Teve alguma coisa que você tirou, que não...não chegou a ir pro livro? Como foi a seleção para colocar essas histórias?
Wagner: Olha, eu contei muitas coisas perigosas, né?, pra mim... Até falo disso na apresentação {do livro} {…}; como ele é biográfico, ele é um testemunho, e não um romance, e não uma fantasia, eu me arrisco, né?, ao contar certas coisas... No entanto, tudo tem um certo limite. E quando se tratava de intimidades muito comprometedoras de outras pessoas, eu evitei. No entanto, isso foi exceção, não foi a regra.
Locutora: Então a maior parte da sua viagem está nesse livro mesmo?
Wagner: Sim, muitas {…} imprudências...e situações das quais as pessoas normalmente não se orgulham, eu quis contar, porque acho que […] é também um serviço, vamos dizer assim, à saúde pública, no sentido de {…} alguém que já não é mais tão jovem, ou já não é jovem, contando sobre sua juventude...isso serve {…} de alerta, né?; isso serve de inspiração até {…}. Se eu tirasse certas partes do livro, eu acho que iria comprometer {…} certas lições, certas experiências que podem enriquecer algumas pessoas {…}.
Locutora: {…} Tem alguma história que de certa forma tenha um espaço especial no seu coração, ou que você daria destaque para compartilhar aqui com os nossos ouvintes pra dar aquele gostinho de quero mais, aí no livro?
Wagner: Muitas histórias {…} que podem soar até inacreditáveis. {...} Eu me sentia no meio de um filme às vezes, porque, por exemplo, conseguir uma carona no deserto, já quando estava quase anoitecendo... E o deserto do Atacama é muito frio, porque eu viajei de carona a maior parte do tempo... Mas eu quero mencionar aqui especialmente uma experiência que eu ainda não mencionei em outras entrevistas, já falei muito do Atacama e quero falar agora de uma ruína inca. As pessoas falam muito em Machu Pichu, né?, e existe, vamos dizer assim, uma Machu Pichu B side, lado B {...} outsider {...} que tava sendo descoberta e aberta na época em que eu visitei o Peru; então eu tive esse privilégio de conhecer, após vagar por três montanhas, subindo três montanhas com um amigo... Isso durou 9 dias, mais ou menos. E encontramos, a mais ou menos 4 mil metros de altura, essa cidade parcialmente coberta ainda {...} pelo mato, por terra ainda, os arqueólogos ainda tavam {...} retirando, né?, ou seja, revelando a cidade, as pedras {...} aquelas pedras que pesam toneladas {...} das cidades incas, e {…} essa experiência foi {…} muito marcante. Porque o amigo que me acompanhava, ele passou mal e...ficou muito… Cheguei até a pensar que ele podia morrer. Porque é uma viagem que {...} exige, uma caminhada que exige muito esforço, né? Normalmente os turistas e mochileiros, os poucos que vão [porque a maioria do pessoal vai pra Machu Pichu, eles vão de mula {...}]. A mula carregando as mochilas, e {os viajantes sobem as montanhas} até com ajudantes nativos. E a gente {Wagner e o amigo} foi andando mesmo, carregando mais ou menos 15kg nas costas com comida {…} fazendo comida no caminho, entendeu? E isso foi, sem dúvida, o ponto mais...o ponto de maior esforço na viagem {pela América Latina} {…}; foi a batalha mais difícil.
Locutora: Como você enfrentou essas dificuldades? Você já tinha visto outra experiência desse tipo? Como é que você permaneceu com seu estilo de vida, assim, conseguiu ter dinheiro, né?, se manter em certos lugares... Como é que funcionou isso?
Wagner: {…} A venda {…} de um carro meu {…} me deu {…} uma boa segurança, né? Inclusive o carro era um Fiesta {…}; então eu digo que a festa começou {…} depois que eu vendi. Tive o azar sortudo de ter o carro roubado e destruído pelos ladrões; então o seguro me deu outro de volta. E peguei um carro novo e ganhei ainda mais do se vendesse o carro velho. {…}. Esse dinheiro eu guardei e tentei rendê-lo {no sentido de economizar} {…} o máximo possível, né? Costumava até guardar o dinheiro no próprio corpo. Era uma coisa assim bem arcaica {…}; não guardei ele inteiro {...} no banco, não confiava nos bancos, de alguma forma. Eu tinha receio {...}
Locutora: Não existia pix, né, ainda?
Wagner: Não existia pix, é verdade. Tive problema quando fui sacar em alguns lugares, fiquei {…} sem dinheiro, tendo que pedir dinheiro emprestado, trabalhar ainda mais. Porque também trabalhei na estrada pra poder tanto amenizar os gastos {...} quanto também me sustentar em algumas situações durante algumas épocas, também. Quando era propício, né? Em alguns lugares eu só conseguia amenizar os gastos com o trabalho, em outros eu conseguia me sustentar. Por exemplo, quando me estabeleci em Medelim, na Colômbia, já perto do fim da viagem, eu consegui {se sustentar plenamente]... tocando em barzinhos MPB {...}. Professor de português também. Aí eu consegui me sustentar mesmo, né?, e não meter a mão no dinheiro guardado lá {...}. Se não fosse esse dinheiro do carro, a viagem teria sido bem mais lenta. Ou muito mais rápida {...}. Mais lenta porque eu teria que ficar trabalhando até juntar dinheiro nos lugares, ou muito mais rápida porque eu teria que {…} passar voando pelos lugares. E não passar às vezes vários meses, como aconteceu, em alguns lugares.
Locutora: E você é escritor, tem outros livros...
Wagner: Eu tenho um livro de poemas. Os outros dois não são exatamente de poema. O outro é um {…} conto que fala de anarquismo. Um conto realista: eu gosto de dizer. E o outro é uma espécie de ensaio. Uma conversa que eu tenho {…} com convidados {…}. Uma espécie de Roda Viva, só que escrita.
Locutora: Então, são de estilos bem diferentes, né?, todos.
Wagner: Sim {…}
Locutora: Teve uma dificuldade específica nesse último, sobre a viagem {...} que você fez?
Wagner: Eu demorei 11 anos {…}. Então, sim, dificuldades. Ele tem algo de romance porque é uma história longa, né? Então eu nunca tinha escrito um “romance”, um livro tão longo. Não estava acostumado. E aprendi a fazer isso – espero – enquanto escrevia “Nomadeia”. Foi difícil {...} porque tive que lembrar de muitas coisas, também até {...} situações desagradáveis {…} tive que lembrar, tive que pesquisar, olhar os meus diários; tem muitas transcrições de diários no livro. Tive que consultar amigos, por exemplo: “Ei, o que foi que aconteceu ali mesmo?”. Consultar as pessoas de vários países, né?, que são meus amigos até hoje {…}. Não foi fácil, não foi fácil. Por isso fiz questão de fazer uma festa no sábado passado; ainda tô de ressaca. A festa durou quase um dia inteiro por isso, porque foi {…} uma gravidez muito longa.
Locutora: Eu estou conversando com o escritor e cientista social Wagner Uarpeik sobre o livro “Nomadeia: jornada de 994 dias pela América do Sul e Caribe”. Wagner, quais são os ensinamentos que você tira dessa viagem? Imagino que tenha sido uma experiência despertadora, né?
Wagner: Muitas lições {…}. Convido as pessoas a lerem o livro. Mas posso adiantar e quero adiantar uma {…} a autodescoberta: mais do que colecionar fotos e dizer “ah, {…} eu estive em Cusco, eu estive Santiago, eu estive em Buenos Aires”, a experiência íntima de se colocar em situações desconhecidas, ter que improvisar. Você descobre então uma força que você tem, que você não sabia. Então eu posso dizer que uma das maiores lições foi essa {…}: eu era bem mais ousado do que eu supunha. Ou seja, a estrada me obrigou a ser mais audacioso. Então quem não se coloca em situações assim, por nossa própria tendência à comodidade {…} à preguiça até, não vai se descobrir. Então, situações de perigos {...} situações selvagens {…} fortalecem o espírito.
Locutora: E os interessados pelo livro, Wagner, onde podem adquirir?
Wagner: Olhe, por enquanto, antes de o livro chegar nas livrarias (vai chegar, eu vou divulgar isso) eu mesmo sou o vendedor {...}. Podem comprar diretamente comigo. Eu gosto disso porque eu conheço as pessoas que querem ler, e isso acaba em amizade, né? Alguém que se interessa pelo seu livro é um grande amigo em potencial, eu penso assim. Então, é só mandar um zap, é muito fácil. Me procure nas redes e lá vai encontrar o link {…} pro meu WhatsApp. Ou posso passar aqui também {…}
{...}
